<font color=0094E0>Combater a exploração e o fascismo</font>
A transformação da CUF num grande império industrial e económico só foi possível graças às relações privilegiadas da empresa com o poder político, fundamentalmente com o regime fascista de Salazar e Caetano. Ao combaterem a exploração na empresa, os operários da CUF lutavam também contra o fascismo.
Em 1907, o administrador-gerente da Companhia União Fabril, Alfredo da Silva, adquire para a empresa lotes de terreno na vila do Barreiro. No ano seguinte, estavam já em laboração as primeiras fábricas do grupo, destinadas à produção de óleo de azeitona para o fabrico de sabão, superfosfatos e ácido sulfúrico.
Nestes primeiros anos, a jornada de trabalho ia até às dezasseis horas diárias. E era a fome que impunha aos trabalhadores a sujeição a tão cruéis condições de trabalho. A organização dos trabalhadores era ainda incipiente.
Com a implantação da República, a luta operária sobe de tom e logo em Outubro de 1910 dá-se a primeira tentativa de fundar a Associação de Classe da CUF. Como represália, Alfredo da Silva leva a cabo uma série de despedimentos. Em Dezembro do mesmo ano, uma greve de solidariedade exige a reintegração dos despedidos e o reconhecimento da associação operária, mas falha nos seus objectivos.
Organizam-se os campos
Em 1919, a República decretara já a jornada de oito horas, mas na CUF os trabalhadores continuavam a laborar doze, catorze e mesmo dezasseis horas por dia, seis dias por semana. Em Abril, funda-se a Associação de Classe do Pessoal da CUF, que adere imediatamente à União Operária Nacional (UON). Agravava-se o confronto entre os trabalhadores e Alfredo da Silva.
No seguimento do despedimento de alguns operários acusados de roubo, os trabalhadores reagem e declaram uma greve, que duraria 43 dias e que teria o apoio solidário de operários de outras empresas. A 11 de Junho, o jornal da UON, A Batalha, acusa Alfredo da Silva de ter «atirado» os operários para a greve.
Fernando Medeiros, no seu livro A Economia e a Sociedade Portuguesa na Origem do Salazarismo, expressa a mesma opinião. Para o historiador, este conflito foi parte da estratégia do industrial para liderar o patronato numa contra-ofensiva ao movimento operário.
Facto é que Alfredo da Silva, que apoiou activamente o franquismo espanhol, foi deputado com João Franco, senador durante a ditadura de Sidónio Pais e procurador na Câmara Corporativa na sua primeira legislatura.
Nasce o PCP, reforça-se o combate
Com a criação do PCP, os trabalhadores ganham uma arma fundamental para a sua luta. No Barreiro é criada a «Comuna Karl Marx», primeira organização partidária na vila. Delegados desta comuna participam, inclusivamente, no I Congresso do Partido e estão particularmente activos na reorganização de 1929, com Bento Gonçalves.
O levantamento de 18 de Janeiro de 1934, contra a fascização dos sindicatos, marca o enfraquecimento decisivo do anarco-sindicalismo no Barreiro. Em contrapartida, o PCP ganha cada vez mais influência no seio do operariado barreirense e da CUF em particular.
No ano seguinte, em Fevereiro, as células do Partido na CUF e nas oficinas dos caminhos-de-ferro desenvolvem uma intensa campanha de agitação e propaganda. Milhares de manifestos são espalhados pela vila e o primeiro dia de Março começa com bandeiras vermelhas com a foice e o martelo hasteadas em vários locais.
Em Abril do mesmo ano, as mulheres do Barreiro lideram uma manifestação contra as torturas infligidas aos presos políticos. A elas juntam-se três mil pessoas.
Protegido pelo regime fascista, Alfredo da Silva lança-se em novos negócios. Após ter ganho com a Campanha do Trigo uma posição determinante na indústria adubeira, cria a Tabaqueira, beneficiando do fim do monopólio do tabaco pelo Estado. Em 1932, inicia-se na metalurgia do chumbo e em 1937 envereda pelo ramo da construção e reparação naval, após ganhar a concessão do estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos, onde nasceria, depois, a Lisnave. Nestes anos, estende os seus investimentos às colónias portuguesas.
Guerra e resistência
No início dos anos 40, a guerra alastrava pela Europa. Em Portugal, a situação era desesperada para os trabalhadores: a inflação galopava, os salários desvalorizavam-se, faltavam os géneros alimentares.
Do outro lado, o império da CUF continuava a crescer, sempre sob a alçada do fascismo: em 1942, pouco antes da morte de Alfredo da Silva, o grupo funda a Companhia de Seguros Império, nova incursão pelo sector financeiro, após a entrada, vinte anos antes, do grupo CUF na Casa Bancária de José Henriques Totta.
Liderados pelo PCP, entre 1941 e 1943, milhares de operários lançam-se em greve. Em Julho de 1943, o Secretariado do Comité Central lança a palavra de ordem «À greve! Pelo aumento dos salários!». Na CUF do Barreiro, a paralisação é geral: com a adesão dos operários da empresa e das demais fábricas da Margem Sul, 14 mil operários estão em greve.
No dia 28, os portões estão encerrados. Os operários organizam duas marchas da fome, conseguindo a adesão dos corticeiros. A repressão da GNR é brutal. Centenas de operários são presos e a vila é ocupada militarmente, situação que se manteria até 1974.
Depois de Alfredo da Silva, os Mellos
>Continuar a luta, rumo à vitória
Nos anos 50, a CUF era já dirigida pela família Mello, parentes de Alfredo da Silva. Mas as ligações ao regime fascista continuaram tão profícuas como dantes. Assim como o crescimento e expansão da CUF, que alargava os seus negócios a novas áreas.
São desta década a luta das tecedeiras contra o aumento da exploração e as lutas contra a «campanha da produtividade», com que a empresa pretendia mascarar a intensificação brutal dos ritmos de trabalho, e pelo aumento dos salários. Graças ao seu firme combate, dirigido pelo PCP, os trabalhadores da CUF do Barreiro alcançam, em 1956, um aumento de 15 por cento nos salários.
Na década seguinte, apesar da forte presença da PIDE e da GNR na empresa, apoiadas numa rede de «bufos», o Partido reforça-se na CUF. A capacidade de organização dos trabalhadores ganha maior força.
Em 1960, os trabalhadores organizam-se clandestinamente em Comissões de Unidade e exigem aumentos salariais. Em Abril de 1962, são recolhidas 4 mil assinaturas reclamando aumentos de 15 escudos diários, a extinção dos prémios e salário igual para trabalho igual. No mês seguinte, conquista-se um aumento de 8 escudos por dia e 200 por mês.
Dois anos e meio depois, em novo abaixo-assinado exige-se 10 escudos de aumento diário, o pagamento do sétimo dia e salário igual para trabalho igual. Num só dia, recolheram-se 4 mil assinaturas. No ano seguinte, os operários da CUF recusam-se a contribuir para a Guerra Colonial. E, nesse mesmo ano, conquistam importantes direitos: subsídio de férias de 50 por cento do salário, subsídio de turno de 25 por cento e subsídio de baixa a sinistrados.
Em 1967, os trabalhadores conseguem eleger representantes de confiança para a Comissão Interna da Empresa e, dois anos depois, em Setembro de 1969, elaboram uma carta reivindicativa. Neste documento, para além de melhorias salariais e de trabalho, exigem o fim da guerra colonial, a saída de Portugal da NATO, amnistia para os presos políticos, a extinção da PIDE, o fim da censura e o estabelecimento de liberdades democráticas.
Até 1974, as lutas não pararam. E as vitórias também não.
Nestes primeiros anos, a jornada de trabalho ia até às dezasseis horas diárias. E era a fome que impunha aos trabalhadores a sujeição a tão cruéis condições de trabalho. A organização dos trabalhadores era ainda incipiente.
Com a implantação da República, a luta operária sobe de tom e logo em Outubro de 1910 dá-se a primeira tentativa de fundar a Associação de Classe da CUF. Como represália, Alfredo da Silva leva a cabo uma série de despedimentos. Em Dezembro do mesmo ano, uma greve de solidariedade exige a reintegração dos despedidos e o reconhecimento da associação operária, mas falha nos seus objectivos.
Organizam-se os campos
Em 1919, a República decretara já a jornada de oito horas, mas na CUF os trabalhadores continuavam a laborar doze, catorze e mesmo dezasseis horas por dia, seis dias por semana. Em Abril, funda-se a Associação de Classe do Pessoal da CUF, que adere imediatamente à União Operária Nacional (UON). Agravava-se o confronto entre os trabalhadores e Alfredo da Silva.
No seguimento do despedimento de alguns operários acusados de roubo, os trabalhadores reagem e declaram uma greve, que duraria 43 dias e que teria o apoio solidário de operários de outras empresas. A 11 de Junho, o jornal da UON, A Batalha, acusa Alfredo da Silva de ter «atirado» os operários para a greve.
Fernando Medeiros, no seu livro A Economia e a Sociedade Portuguesa na Origem do Salazarismo, expressa a mesma opinião. Para o historiador, este conflito foi parte da estratégia do industrial para liderar o patronato numa contra-ofensiva ao movimento operário.
Facto é que Alfredo da Silva, que apoiou activamente o franquismo espanhol, foi deputado com João Franco, senador durante a ditadura de Sidónio Pais e procurador na Câmara Corporativa na sua primeira legislatura.
Nasce o PCP, reforça-se o combate
Com a criação do PCP, os trabalhadores ganham uma arma fundamental para a sua luta. No Barreiro é criada a «Comuna Karl Marx», primeira organização partidária na vila. Delegados desta comuna participam, inclusivamente, no I Congresso do Partido e estão particularmente activos na reorganização de 1929, com Bento Gonçalves.
O levantamento de 18 de Janeiro de 1934, contra a fascização dos sindicatos, marca o enfraquecimento decisivo do anarco-sindicalismo no Barreiro. Em contrapartida, o PCP ganha cada vez mais influência no seio do operariado barreirense e da CUF em particular.
No ano seguinte, em Fevereiro, as células do Partido na CUF e nas oficinas dos caminhos-de-ferro desenvolvem uma intensa campanha de agitação e propaganda. Milhares de manifestos são espalhados pela vila e o primeiro dia de Março começa com bandeiras vermelhas com a foice e o martelo hasteadas em vários locais.
Em Abril do mesmo ano, as mulheres do Barreiro lideram uma manifestação contra as torturas infligidas aos presos políticos. A elas juntam-se três mil pessoas.
Protegido pelo regime fascista, Alfredo da Silva lança-se em novos negócios. Após ter ganho com a Campanha do Trigo uma posição determinante na indústria adubeira, cria a Tabaqueira, beneficiando do fim do monopólio do tabaco pelo Estado. Em 1932, inicia-se na metalurgia do chumbo e em 1937 envereda pelo ramo da construção e reparação naval, após ganhar a concessão do estaleiro da Rocha do Conde de Óbidos, onde nasceria, depois, a Lisnave. Nestes anos, estende os seus investimentos às colónias portuguesas.
Guerra e resistência
No início dos anos 40, a guerra alastrava pela Europa. Em Portugal, a situação era desesperada para os trabalhadores: a inflação galopava, os salários desvalorizavam-se, faltavam os géneros alimentares.
Do outro lado, o império da CUF continuava a crescer, sempre sob a alçada do fascismo: em 1942, pouco antes da morte de Alfredo da Silva, o grupo funda a Companhia de Seguros Império, nova incursão pelo sector financeiro, após a entrada, vinte anos antes, do grupo CUF na Casa Bancária de José Henriques Totta.
Liderados pelo PCP, entre 1941 e 1943, milhares de operários lançam-se em greve. Em Julho de 1943, o Secretariado do Comité Central lança a palavra de ordem «À greve! Pelo aumento dos salários!». Na CUF do Barreiro, a paralisação é geral: com a adesão dos operários da empresa e das demais fábricas da Margem Sul, 14 mil operários estão em greve.
No dia 28, os portões estão encerrados. Os operários organizam duas marchas da fome, conseguindo a adesão dos corticeiros. A repressão da GNR é brutal. Centenas de operários são presos e a vila é ocupada militarmente, situação que se manteria até 1974.
Depois de Alfredo da Silva, os Mellos
>Continuar a luta, rumo à vitória
Nos anos 50, a CUF era já dirigida pela família Mello, parentes de Alfredo da Silva. Mas as ligações ao regime fascista continuaram tão profícuas como dantes. Assim como o crescimento e expansão da CUF, que alargava os seus negócios a novas áreas.
São desta década a luta das tecedeiras contra o aumento da exploração e as lutas contra a «campanha da produtividade», com que a empresa pretendia mascarar a intensificação brutal dos ritmos de trabalho, e pelo aumento dos salários. Graças ao seu firme combate, dirigido pelo PCP, os trabalhadores da CUF do Barreiro alcançam, em 1956, um aumento de 15 por cento nos salários.
Na década seguinte, apesar da forte presença da PIDE e da GNR na empresa, apoiadas numa rede de «bufos», o Partido reforça-se na CUF. A capacidade de organização dos trabalhadores ganha maior força.
Em 1960, os trabalhadores organizam-se clandestinamente em Comissões de Unidade e exigem aumentos salariais. Em Abril de 1962, são recolhidas 4 mil assinaturas reclamando aumentos de 15 escudos diários, a extinção dos prémios e salário igual para trabalho igual. No mês seguinte, conquista-se um aumento de 8 escudos por dia e 200 por mês.
Dois anos e meio depois, em novo abaixo-assinado exige-se 10 escudos de aumento diário, o pagamento do sétimo dia e salário igual para trabalho igual. Num só dia, recolheram-se 4 mil assinaturas. No ano seguinte, os operários da CUF recusam-se a contribuir para a Guerra Colonial. E, nesse mesmo ano, conquistam importantes direitos: subsídio de férias de 50 por cento do salário, subsídio de turno de 25 por cento e subsídio de baixa a sinistrados.
Em 1967, os trabalhadores conseguem eleger representantes de confiança para a Comissão Interna da Empresa e, dois anos depois, em Setembro de 1969, elaboram uma carta reivindicativa. Neste documento, para além de melhorias salariais e de trabalho, exigem o fim da guerra colonial, a saída de Portugal da NATO, amnistia para os presos políticos, a extinção da PIDE, o fim da censura e o estabelecimento de liberdades democráticas.
Até 1974, as lutas não pararam. E as vitórias também não.